BAGNO,
M.; STUBBS M.; GAGNÈ, M. Língua maternal:
letramento, variação e ensino. São Paulo: Parábola, 2002.
O
texto “A inevitável travessia: da prescrição gramatical à educação linguística”
do teórico Bagno é um ensaio com o intuito de fornecer as pessoas interessadas
algumas sugestões de como aplicar a teoria aprendida nos campos acadêmicos de
forma eficaz.
Sob
o tópico “A concepção abstrata da língua” Bagno critica a visão tradicional do
ensino da língua, que parte da antiga noção filosófica da tábula rasa, no qual,
acredita que a língua materna é ensinada na escola e a língua é trabalhada no
campo da abstração. Por causa desse conceito de abstração é que há até hoje,
uma enorme distância entre as regras gramaticais descritas e prescritas pela norma-padrão
e o uso real dos recursos linguísticos nas múltiplas variedades do português do
Brasil.
No
tópico dois: “Concepção de língua, concepção de sociedade” Bagno descreve o
cenário do nascimento da Gramática Tradicional na sociedade grega na
Antiguidade Clássica e no período do Renascimento, uma sociedade excludente e
preconceituosa, no qual mulheres e escravos não podiam ser considerados
cidadãos e muito menos participar nas decisões sobre o destino do estado.
Embora
tenham ocorrido diversas mudanças no cenário mundial desde a Antiguidade
Clássica, a Gramática tradicional ainda preserva essa mesma ideologia cujo
objetivo restringe apenas ao estudo e prescrição. Diante disso, Bagno alerta
para a necessidade de uma revisão crítica da NP, para que ela se aproxime mais
da realidade linguística falada e escrita hoje no Brasil.
Para
que essa aproximação ocorra, Bagno no tópico três: “Pluralidade linguística e
dinâmica social” sugere que seria bem mais interessante, estimular nas aulas de
língua um conhecimento cada vez maior e melhor de todas as variedades
sociolingüísticas, transformando-a num laboratório vivo de pesquisa do idioma
em sua multiplicidade de formas e usos. Pois, percebe-se hoje no Brasil uma
interpretação cada vez maior entre as diferentes variedades regionais,
estilísticas, sociais entre outros.
Sob
o tópico “O vigor da concepção tradicional de língua na mídia contemporânea”
Marcos Bagno aborda a insistência da mídia e da multimídia brasileira
contemporânea em propagar a preservação de uma norma brasileira abstrata e um
pensamento único da língua. Revelando um comportamento conservador e mais
tradicionalista do que os próprios gramáticos tradicionais.
O
autor utiliza de ilustrações de manuais elaborados pela multimídia para
explicitar o paradoxo entre o que preconizam e o que escrevem. Além disso,
percebe-se também que os manuais de redação insistem em preservar uma regra (o
emprego do verbo haver) que entra em conflito com a instituição linguística dos
falantes, e inclusive dos falantes cultos e dos cultíssimos (Machado, Saramago
e Veríssimo), tornando-se totalmente incoerentes nas suas ações e discursos.
No
tópico quatro, estudioso nos atenta para a postura equivocada dos professores
da língua em trabalhar a gramática normativa apenas com nomenclaturas,
definições e classificações, o que para o autor é um crime pedagógico, uma
perda de tempo, visto que esses conhecimentos não têm nenhuma aplicabilidade na
vida.
No
tópico “O que é letramento?” Bagno utiliza o conceito de letramento segundo
Soares para aclarar o objetivo do ensino da língua, que de acordo com ele, é desenvolver
nele um conjunto de habilidades e
comportamentos de leituras e escrita que lhe permitam fazer o maior e mais
eficiente uso possível das capacidades técnicas de ler e escrever.
Bagno
ressalta sob o tópico “Letramento e gêneros textuais” a relevância de se
considerar as realizações empíricas da língua, que são os textos – textos esses
que se concretizam na forma de gêneros textuais. Sob este prisma, o teórico orienta
que não devemos desconsiderar as práticas orais, assim como o ensino
tradicional fazia, visto que essa é uma forma da ampliar o conceito de
letramento, inclusive o letramento digital.
No
tópico: “Ensino de gramática ou reflexão linguística?” o autor aclara que para
executar a teorização/investigação da língua é necessário realizar pesquisa
linguística; O mesmo justifica a introdução dessa prática de pesquisa partindo
da premissa que jamais será possível escrever uma única gramática que abarque
todas as variedades linguísticas do português brasileiro nem dos seus
incontáveis usos nos gêneros textuais em que elas podem se manifestar.
No
tópico oito, Bagno descreve detalhadamente os passos de como executar uma
pesquisa linguística em sala e suas contribuições. Pois, para ele, embora o
professor continue utilizando as ferramentas pedagógicas de espírito
tradicional e conservador, devido às diversas exigências citadas anteriormente,
ele pode utilizar esse material que já está à disposição, contudo de forma
crítica, como ponto de partida para conscientização dos alunos de que língua e
linguagem são coisas muito mais rica e fascinante do que a velha descrição mecânica de conceitos,
nomenclaturas da gramática tradicional.
No
tópico nove, cujo título é “Variação linguística e ensino de língua: a doutrina
do erro” Bagno aponta como papel também do professor de língua apresentar e
discutir os valores sociais atribuídos a cada variedade linguística. E como
tarefa da educação da lingüística explicitar, explicar e combater o preconceito
lingüístico, a exclusão social que é tão freqüente.
Além
disso, como afirma o autor, uma das funções do ensino de língua na escola seria
discutir os valores sociais atribuídos a cada variante linguística, enfatizando
a carga de discriminação que pesa sobre determinados usos da língua, do modo a
conscientizar os alunos de que sua produção, oral ou escrita, estará sempre
sujeita a uma avaliação social, positiva ou negativa.
No
último tópico, Bagno aborda a respeito da “Formação do professor de língua” no
qual afirma que as universidades precisam renovar a maneira de empreender a
formação dos professores de língua, deixando de enfatizar apenas a transmissão
estática da NP e da gramática normativa para estimular o conhecimento dinâmico
da língua em toda diversidade.
Bagno
finaliza seu ensaio declarando que o conhecimento da Gramática Tradicional, das
teorias lingüísticas e das metodologias de pesquisa cientifica vão constituir a
formação do professor de língua, dando-lhe subsídios para que ele possa
desempenhar o seu trabalho de forma eficaz.
A
leitura do texto de Bagno pode ser considerada de fácil compreensão, bem
objetivo, de conteúdo didático excelente. As indagações realizadas por ele,
acerca do ensino da língua são de extrema relevância posto que impulsiona-nos a
refletir acerca da nossa prática escolar.
A
leitura é prazerosa, no qual transmite a idéia de que estamos numa palestra,
frente a frente com o autor e o mais fascinante e enriquecedor é que ele propõe
sugestões práticas totalmente viáveis para aqueles que estão realmente
interessados em atuar com êxito no ensino da língua em sala de aula.
O
autor por meio de seu ensaio aborda questões de extrema relevância para nossa
prática. As discussões acerca das angústias que a maioria dos professores
enfrenta com relação ao ensino da língua foram ressaltadas com muita destreza.
Principalmente no que tange a transposição do discurso para a prática. Pois,
percebe-se hoje que, muitos professores tem o desejo de aplicar as teorias
discutidas e analisadas nas universidades, no entanto, muitas vezes são podados
e até mesmo rotulados de não querer cumprir o seu papel que segundo eles,
limita-se apenas a ensinar a gramática normativa.
Outro
aspecto notável foi o tópico “um crime pedagógico”. Esse tópico ressalta quão
deturpada é a nossa visão com relação ao objetivo do ensino na escola. E mesmo
quando já desconsideramos esses objetivos, nossos colegas de trabalho insistem
nesta concepção de que nossa função é ensinar aos alunos a ler e escrever
corretamente.
A
definição acerca de qual é o objetivo da língua na escola utilizando o letramento,
partindo da visão de Magda Soares foi bem esclarecedor, explicitando que
devemos criar condições para letramento, ou seja, devemos criar condições para
o desenvolvimento cada vez mais intenso e extenso das habilidades de escrita e
leitura.
Apesar
dessa obra ter sido elaborada em 2002, as admoestações acerca da formação do
professor de língua é bem atual. Percebe-se, ainda hoje, que as universidades
deixam a desejar com relação à formação de professores da língua. Por isso
observam-se também muitos recém formados sem saber como atuar em sala, isso
porque as discussões ficam muito restritas a linha teórica, sem partir para
pesquisas de campo.
Comungo
totalmente com a observação de Bagno concernente ao que deveria ser o grande
foco de interesse da prática pedagógica e da pesquisa do professor de língua: “o conhecimento cada vez mais detalhado da
variação linguística e das consequências sociais dessa variação – consequências
que nada tem a ver com suposto valores intrínsecos das diferentes variedades
linguísticas, mas sim com fenômenos sociológicos que levaram à valorização e à
atribuição de prestígio a determinadas formas linguísticas, as que compareceram
nas variedades das camadas sociais dominantes”.
No
entanto, o ponto ápice do texto é o tópico 8, no qual, o autor, após teorizar com eficácia a aplicação do
ensino da língua em sala, descreve como fazer isso na prática. Bagno orienta em
linhas gerais as cinco etapas de uma pesquisa linguística que pode ser
empreendida em sala. O mais interessante é que as sugestões são totalmente
viáveis, aplicáveis, além disso, a partir da execução dessa sugestão, poderemos
selecionar um vasto material de estudos que corroborará para disseminar o
preconceito lingüístico e nos auxiliar em propagar conhecimentos acerca da
língua.
Enfim,
Bagno põe o professor de português que está aberto a mudanças a repensar o seu
modo de ensinar a língua materna saindo da prática centralizada na memorização
de regras e, juntamente com seus alunos, compreender a funcionalidade dos
recursos da língua, bem como utilizar os conhecimentos linguísticos como
aliados e corroborar para que o papel da escola seja atingido: oferecer aos
alunos uma verdadeira educação linguistica.
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