domingo, 21 de outubro de 2012


Olá pessoal
Fiz uma resenha de uma obra que considero fantástica e de grande relevância para quem se interessa pelos aspectos da língua.


BAGNO, M.; STUBBS M.; GAGNÈ, M. Língua maternal: letramento, variação e ensino. São Paulo: Parábola, 2002.

O texto “A inevitável travessia: da prescrição gramatical à educação linguística” do teórico Bagno é um ensaio com o intuito de fornecer as pessoas interessadas algumas sugestões de como aplicar a teoria aprendida nos campos acadêmicos de forma eficaz.

Sob o tópico “A concepção abstrata da língua” Bagno critica a visão tradicional do ensino da língua, que parte da antiga noção filosófica da tábula rasa, no qual, acredita que a língua materna é ensinada na escola e a língua é trabalhada no campo da abstração. Por causa desse conceito de abstração é que há até hoje, uma enorme distância entre as regras gramaticais descritas e prescritas pela norma-padrão e o uso real dos recursos linguísticos nas múltiplas variedades do português do Brasil.

No tópico dois: “Concepção de língua, concepção de sociedade” Bagno descreve o cenário do nascimento da Gramática Tradicional na sociedade grega na Antiguidade Clássica e no período do Renascimento, uma sociedade excludente e preconceituosa, no qual mulheres e escravos não podiam ser considerados cidadãos e muito menos participar nas decisões sobre o destino do estado. 

Embora tenham ocorrido diversas mudanças no cenário mundial desde a Antiguidade Clássica, a Gramática tradicional ainda preserva essa mesma ideologia cujo objetivo restringe apenas ao estudo e prescrição. Diante disso, Bagno alerta para a necessidade de uma revisão crítica da NP, para que ela se aproxime mais da realidade linguística falada e escrita hoje no Brasil.

Para que essa aproximação ocorra, Bagno no tópico três: “Pluralidade linguística e dinâmica social” sugere que seria bem mais interessante, estimular nas aulas de língua um conhecimento cada vez maior e melhor de todas as variedades sociolingüísticas, transformando-a num laboratório vivo de pesquisa do idioma em sua multiplicidade de formas e usos. Pois, percebe-se hoje no Brasil uma interpretação cada vez maior entre as diferentes variedades regionais, estilísticas, sociais entre outros.

Sob o tópico “O vigor da concepção tradicional de língua na mídia contemporânea” Marcos Bagno aborda a insistência da mídia e da multimídia brasileira contemporânea em propagar a preservação de uma norma brasileira abstrata e um pensamento único da língua. Revelando um comportamento conservador e mais tradicionalista do que os próprios gramáticos tradicionais.

O autor utiliza de ilustrações de manuais elaborados pela multimídia para explicitar o paradoxo entre o que preconizam e o que escrevem. Além disso, percebe-se também que os manuais de redação insistem em preservar uma regra (o emprego do verbo haver) que entra em conflito com a instituição linguística dos falantes, e inclusive dos falantes cultos e dos cultíssimos (Machado, Saramago e Veríssimo), tornando-se totalmente incoerentes nas suas ações e discursos.

No tópico quatro, estudioso nos atenta para a postura equivocada dos professores da língua em trabalhar a gramática normativa apenas com nomenclaturas, definições e classificações, o que para o autor é um crime pedagógico, uma perda de tempo, visto que esses conhecimentos não têm nenhuma aplicabilidade na vida.

No tópico “O que é letramento?” Bagno utiliza o conceito de letramento segundo Soares para aclarar o objetivo do ensino da língua, que de acordo com ele, é desenvolver nele um conjunto de habilidades  e comportamentos de leituras e escrita que lhe permitam fazer o maior e mais eficiente uso possível das capacidades técnicas de ler e escrever.

Bagno ressalta sob o tópico “Letramento e gêneros textuais” a relevância de se considerar as realizações empíricas da língua, que são os textos – textos esses que se concretizam na forma de gêneros textuais. Sob este prisma, o teórico orienta que não devemos desconsiderar as práticas orais, assim como o ensino tradicional fazia, visto que essa é uma forma da ampliar o conceito de letramento, inclusive o letramento digital.

No tópico: “Ensino de gramática ou reflexão linguística?” o autor aclara que para executar a teorização/investigação da língua é necessário realizar pesquisa linguística; O mesmo justifica a introdução dessa prática de pesquisa partindo da premissa que jamais será possível escrever uma única gramática que abarque todas as variedades linguísticas do português brasileiro nem dos seus incontáveis usos nos gêneros textuais em que elas podem se manifestar.

No tópico oito, Bagno descreve detalhadamente os passos de como executar uma pesquisa linguística em sala e suas contribuições. Pois, para ele, embora o professor continue utilizando as ferramentas pedagógicas de espírito tradicional e conservador, devido às diversas exigências citadas anteriormente, ele pode utilizar esse material que já está à disposição, contudo de forma crítica, como ponto de partida para conscientização dos alunos de que língua e linguagem são coisas muito mais rica e fascinante do que  a velha descrição mecânica de conceitos, nomenclaturas  da gramática tradicional.

No tópico nove, cujo título é “Variação linguística e ensino de língua: a doutrina do erro” Bagno aponta como papel também do professor de língua apresentar e discutir os valores sociais atribuídos a cada variedade linguística. E como tarefa da educação da lingüística explicitar, explicar e combater o preconceito lingüístico, a exclusão social que é tão freqüente.

Além disso, como afirma o autor, uma das funções do ensino de língua na escola seria discutir os valores sociais atribuídos a cada variante linguística, enfatizando a carga de discriminação que pesa sobre determinados usos da língua, do modo a conscientizar os alunos de que sua produção, oral ou escrita, estará sempre sujeita a uma avaliação social, positiva ou negativa.

No último tópico, Bagno aborda a respeito da “Formação do professor de língua” no qual afirma que as universidades precisam renovar a maneira de empreender a formação dos professores de língua, deixando de enfatizar apenas a transmissão estática da NP e da gramática normativa para estimular o conhecimento dinâmico da língua em toda diversidade.

Bagno finaliza seu ensaio declarando que o conhecimento da Gramática Tradicional, das teorias lingüísticas e das metodologias de pesquisa cientifica vão constituir a formação do professor de língua, dando-lhe subsídios para que ele possa desempenhar o seu trabalho de forma eficaz.

A leitura do texto de Bagno pode ser considerada de fácil compreensão, bem objetivo, de conteúdo didático excelente. As indagações realizadas por ele, acerca do ensino da língua são de extrema relevância posto que impulsiona-nos a refletir acerca da nossa prática escolar.

A leitura é prazerosa, no qual transmite a idéia de que estamos numa palestra, frente a frente com o autor e o mais fascinante e enriquecedor é que ele propõe sugestões práticas totalmente viáveis para aqueles que estão realmente interessados em atuar com êxito no ensino da língua em sala de aula.

O autor por meio de seu ensaio aborda questões de extrema relevância para nossa prática. As discussões acerca das angústias que a maioria dos professores enfrenta com relação ao ensino da língua foram ressaltadas com muita destreza. Principalmente no que tange a transposição do discurso para a prática. Pois, percebe-se hoje que, muitos professores tem o desejo de aplicar as teorias discutidas e analisadas nas universidades, no entanto, muitas vezes são podados e até mesmo rotulados de não querer cumprir o seu papel que segundo eles, limita-se apenas a ensinar a gramática normativa.

Outro aspecto notável foi o tópico “um crime pedagógico”. Esse tópico ressalta quão deturpada é a nossa visão com relação ao objetivo do ensino na escola. E mesmo quando já desconsideramos esses objetivos, nossos colegas de trabalho insistem nesta concepção de que nossa função é ensinar aos alunos a ler e escrever corretamente.

A definição acerca de qual é o objetivo da língua na escola utilizando o letramento, partindo da visão de Magda Soares foi bem esclarecedor, explicitando que devemos criar condições para letramento, ou seja, devemos criar condições para o desenvolvimento cada vez mais intenso e extenso das habilidades de escrita e leitura.

Apesar dessa obra ter sido elaborada em 2002, as admoestações acerca da formação do professor de língua é bem atual. Percebe-se, ainda hoje, que as universidades deixam a desejar com relação à formação de professores da língua. Por isso observam-se também muitos recém formados sem saber como atuar em sala, isso porque as discussões ficam muito restritas a linha teórica, sem partir para pesquisas de campo.

Comungo totalmente com a observação de Bagno concernente ao que deveria ser o grande foco de interesse da prática pedagógica e da pesquisa do professor de língua: “o conhecimento cada vez mais detalhado da variação linguística e das consequências sociais dessa variação – consequências que nada tem a ver com suposto valores intrínsecos das diferentes variedades linguísticas, mas sim com fenômenos sociológicos que levaram à valorização e à atribuição de prestígio a determinadas formas linguísticas, as que compareceram nas variedades das camadas sociais dominantes”.

No entanto, o ponto ápice do texto é o tópico 8, no qual, o autor,  após teorizar com eficácia a aplicação do ensino da língua em sala, descreve como fazer isso na prática. Bagno orienta em linhas gerais as cinco etapas de uma pesquisa linguística que pode ser empreendida em sala. O mais interessante é que as sugestões são totalmente viáveis, aplicáveis, além disso, a partir da execução dessa sugestão, poderemos selecionar um vasto material de estudos que corroborará para disseminar o preconceito lingüístico e nos auxiliar em propagar conhecimentos acerca da língua.

Enfim, Bagno põe o professor de português que está aberto a mudanças a repensar o seu modo de ensinar a língua materna saindo da prática centralizada na memorização de regras e, juntamente com seus alunos, compreender a funcionalidade dos recursos da língua, bem como utilizar os conhecimentos linguísticos como aliados e corroborar para que o papel da escola seja atingido: oferecer aos alunos uma verdadeira educação linguistica.

 

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