sexta-feira, 6 de julho de 2018

A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA NA SALA DE AULA



            Muitas pesquisas em torno da abordagem da variação linguística nas escolas tem explicitado a urgência de mudança de concepção acerca da visão monolítica da língua. Infelizmente, ainda é enorme a difusão do preconceito linguístico nas mais diversas esferas: mídias impressas e digitais e infelizmente no âmbito educacional.
Por muitos anos, o trabalho com a variação foi ignorado ou menosprezado por professores e autores de livros didáticos. Como nos afirma Bagno (2002, P.47-48): O objetivo do ensino tradicional na escola brasileira sempre foi transmitir aos alunos uma língua digna, a norma padrão, que é identificada como português.
Dessa forma, os alunos eram encaminhados para serem ensinados a utilizar o idioma, pois, os que dominavam a norma culta da língua eram rotulados de sábios, dignos de veneração. Frequentemente ouvia-se alguém assumir não saber falar o português, como se fosse outro idioma, demonstrando-se inseguro ao expressar-se em público. Outros sofriam preconceitos, sendo excluídos de frequentar alguns setores da sociedade. Tudo isso porque desconhecia os detalhes da língua padrão.
Com o surgimento da sociolinguística, a ciência que estuda as relações que existem entre todos aqueles fatores (idade, sexo, escolaridade, origem geográfica e etc.) usados para classificar um falante e o modo como ele fala, vê-se a necessidade de mudar a nossa postura diante dos estudos de Língua Portuguesa. Não podemos tratar mais o idioma como sendo o resultado apenas de um modelo padrão. Precisamos reconhecer a importância do trabalho de considerar a variação linguística e seu uso na sala de aula.
Pois como nos afirma Antunes (2009, P.22):
Em qualquer língua, de qualquer época, desde que em uso, ocorreram mudanças, em todos os estratos, em todos os níveis, o que significa dizer que, naturalmente, qualquer língua manifesta-se num conjunto de diferentes falares que atendem às exigências dos diversos contextos de uso dessa língua (ANTUNES, 2009, p.22).
Cientes de que todos sabem falar o português, podem até não dominar a norma culta, o que não significa que desconhecem seu idioma, como propõem os linguistas- cientistas da língua. Segundo Bagno (2001, P. 24), a língua falada é que é a verdadeira língua natural, a língua que cada pessoa aprende com sua mãe, seu pai, seus irmãos, sua tribo, seus grupos sociais e etc. Ela é que é a língua viva, em constante ebulição, em constante transformação.
É vital democratizar a educação escolar, para não estigmatizar o aluno por não dominar a Norma Padrão, por seguir uma sequência natural, por ser influenciado pelo contexto no qual está inserido. Precisa-se utilizar no âmbito educacional, o que Bagno rotula de “Educação Linguística” (2002), ou seja, as múltiplas variedades linguísticas (sociais, regionais, profissionais, etárias) que qualquer língua viva possui. A intenção não é aceitar o erro, como alguns julgam, ou substituir uma língua por outra. E sim, como assevera Gagné (2002) familiarizar o aluno com a diversidade linguística. Algo também preconizado por Bagno ( 2002, p. 134)
 [...] é interessante estimular nas aulas de língua materna um conhecimento cada vez maior e melhor das variedades sociolinguísticas para que o espaço de sala de aula deixe de ser o local para estudo exclusivo das variedades de maior prestígio social e se transforme num laboratório vivo de pesquisa do idioma em sua multiplicidade de formas e usos (BAGNO, 2002, p. 134).
Infelizmente o ensino da língua materna limita-se ao ensino de gramática, apresentada como norma culta, exclui o ensino de todas as manifestações escritas ou faladas por qualquer falante nativo, contribuindo ainda mais para a propagação do preconceito linguístico posto que a relevância  atribuída a cada variação ainda continua vinculado à classe social de seus falantes.
Tanto os autores de livros didáticos quanto os educadores ainda confundem-se com os termos Língua Padrão[1] e Língua Culta[2]. Ensinar Português ou a língua, não é transmitir apenas regras da gramática descontextualizada das situações reais de uso dos falantes, pois desta forma ele está privilegiando apenas uma das variedades da língua e as demais estão sendo ignoradas.

Comungando desta mesma acepção Bortoni- Ricardo (2005, p.15) diz que:
A escola não pode ignorar as diferenças sociolinguísticas. Os professores e por meio deles, os alunos têm que estar bem conscientes de que existem duas ou mais maneiras de dizer a mesma coisa. E mais, que essas formas alternativas servem a propósitos comunicativos distintos e são recebidas de maneira diferenciada pela sociedade” (BORTONI-RICARDO,2005, p. 15)
            Diante do exposto, fica evidente que a escola precisa repensar suas práticas pedagógicas e ter como ponto de partida as variedades linguísticas, para explorá-las de forma mais sistemáticas. Pois a partir do momento que fizer isso todos serão beneficiados: escola/docentes e alunos, visto que partirão de reais situações comunicativas para realizar uma educação linguística eficiente.
A sociolinguística nos ensina que a língua varia de acordo com os grupos sociais. Diante disso, é preciso que os professores, ao escolherem um livro didático, observem como este analisa a questão da variação linguística, fazendo a seguinte pergunta: como esse livro aborda o ensino variação na sala de aula.

De acordo com Calvet (2002:32):

A Sociolinguística objetiva sistematizar a variação presente na linguagem não alçando mão da perspectiva evolutiva cronológica, mas pensando nas alterações perceptivas em curso da língua no presente. Ela considera fatores como idade, sexo, educação utilizando pressupostos da análise linguística tradicional para estabelecer correlação entre o social e o linguístico.
( CALVET, 202, P.32)

Segundo Bagno (2000:55) “O estudo científico da linguagem oral é importante por ser na língua falada que ocorrem as mudanças e as variações que incessantemente vão transformando a língua”.
A linguagem padrão que se ensina é diferente e distante do português utilizado no dia a dia, o que leva muitos a concepção de que desconhecem essa língua. Para Bagno (2011) “o preconceito linguístico não existe. O que existe de fato é o preconceito social. Então, a língua, a maneira de falar da pessoa é apenas uma desculpa que as outras pessoas usam para discriminar, para excluir. Então o preconceito é social”.
Assim como os autores acima citados, os PCN de Língua Portuguesa (1998:48) reconhece a importância de trabalhar levando em conta a variação linguística, porém, nos adverte quanto à forma de lidar com essa situação, respeitando as diferenças para não realçar a questão do erro e acerto evitando a discriminação de algumas manifestações linguísticas:

O domínio da língua tem estreita relação com a possibilidade de plena participação social efetiva, pois é por meio dela que o homem se comunica, tem acesso à informação, expressa e defende pontos de vista, partilha ou constrói visões de mundo, produz conhecimento. Assim um projeto educativo comprometido com a democratização social e cultural atribui à escola a responsabilidade de garantir a todos os seus alunos o acesso aos saberes linguísticos necessários para o exercício da cidadania, direito inalienável de todos. (BRASIL, 1998, p. 48).

 “N
O Professor de Língua Portuguesa deve estar ciente de que existem variedades, tanto na língua falada como escrita. A escola precisa dar espaço para que seus alunos e envolvidos revelem diversas formas de comunicação provindas de sua comunidade, uma vez que nela circulam pessoas de faixa etária, regiões, escolaridade, renda díspares. Sobre esse pensamento Bagno (2001, p.59) propõe:
 
Desdobrar dentro da escola um painel multifacetado, complexo e rico da realidade linguística brasileira, em vez de oferecer como único modelo a ser imitado o dos clássicos da literatura. A escola, insisto, tem de se abrir a todos os gêneros em que se pode concretizar o uso da língua.( BAGNO, 2001,59)

      Os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa (2001: 12), no item 1.4.2 sob o tópico Que fala cabe à escola ensinar? Nos alerta para a propagação do respeito à integridade linguística de seus alunos orienta também como a escola deve posicionar-se diante de diferentes formas de falar:

A língua Portuguesa, no Brasil, possui muitas variedades dialetais. Identificam-se geográfica e socialmente as pessoas pela forma como falam. Mas há muitos preconceitos decorrentes do valor social relativo que é atribuído aos diferentes modos de falar: é muito comum se considerarem as variedades linguísticas de menor prestígio como inferiores ou errada. O problema do preconceito disseminado na sociedade em relação às falas dialetais deve ser enfrentado, na escola, como parte do objetivo educacional mais amplo de educação para o respeito à diferença. (PCN, 2001, p.12)

Dessa forma, todos nós, educadores devemos estar atentos às situações que envolvem fenômenos linguísticos considerados erros por serem manifestações que fogem às regras da variedade culta na sala de aula. Nosso aluno não pode sentir-se intimidado ou até mesmo discriminado devido a sua forma de expressar.
Artigo elaborado por: Elania Ferreira

[1] Língua Padrão: é o modelo ideal de língua que deve ser usado que a Gramática Normativa preconiza, que deve ser ensinado pelas escolas, contudo ninguém consegue apreendê-la completamente devido as suas arbitrariedades.
[2] Língua Culta: é a  que é tida como língua correta, está intimamente ligada ao nível social, pois é a língua da elite, das classes mais privilegiadas socialmente, e os que na a dominam, as demais variedades, são estigmatizadas, assim como seus falantes, e vistas como usos errados e inaceitáveis.

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