Muitas pesquisas em torno da abordagem da variação
linguística nas escolas tem explicitado a urgência de mudança de concepção
acerca da visão monolítica da língua. Infelizmente, ainda é enorme a difusão do
preconceito linguístico nas mais diversas esferas: mídias impressas e digitais
e infelizmente no âmbito educacional.
Por
muitos anos, o trabalho com a variação foi ignorado ou menosprezado por
professores e autores de livros didáticos. Como nos afirma Bagno (2002, P.47-48):
O objetivo do ensino tradicional na escola brasileira sempre foi transmitir aos
alunos uma língua digna, a norma padrão, que é identificada como português.
Dessa forma, os alunos eram encaminhados para serem
ensinados a utilizar o idioma, pois, os que dominavam a norma culta da língua eram rotulados de sábios, dignos de
veneração. Frequentemente ouvia-se alguém assumir não saber falar o português,
como se fosse outro idioma, demonstrando-se inseguro ao expressar-se em
público. Outros sofriam preconceitos, sendo excluídos de frequentar alguns
setores da sociedade. Tudo isso porque desconhecia os detalhes da língua
padrão.
Com o surgimento da sociolinguística, a ciência que
estuda as relações que existem entre todos aqueles fatores (idade, sexo,
escolaridade, origem geográfica e etc.) usados para classificar um falante e o
modo como ele fala, vê-se a necessidade de mudar a nossa postura diante dos
estudos de Língua Portuguesa. Não podemos tratar mais o idioma como sendo o
resultado apenas de um modelo padrão. Precisamos reconhecer a importância do
trabalho de considerar a variação linguística e seu uso na sala de aula.
Pois
como nos afirma Antunes (2009, P.22):
Em
qualquer língua, de qualquer época, desde que em uso, ocorreram mudanças, em
todos os estratos, em todos os níveis, o que significa dizer que, naturalmente,
qualquer língua manifesta-se num conjunto de diferentes falares que atendem às
exigências dos diversos contextos de uso dessa língua (ANTUNES, 2009, p.22).
Cientes de que todos sabem falar o português, podem
até não dominar a norma culta, o que não significa que desconhecem seu idioma,
como propõem os linguistas- cientistas da língua. Segundo Bagno (2001, P. 24),
a língua falada é que é a verdadeira língua natural, a língua que cada pessoa
aprende com sua mãe, seu pai, seus irmãos, sua tribo, seus grupos sociais e
etc. Ela é que é a língua viva, em constante ebulição, em constante
transformação.
É
vital democratizar a educação escolar, para não estigmatizar o aluno por não
dominar a Norma Padrão, por seguir uma sequência natural, por ser influenciado
pelo contexto no qual está inserido. Precisa-se utilizar no âmbito educacional,
o que Bagno rotula de “Educação Linguística” (2002), ou seja, as múltiplas variedades linguísticas (sociais,
regionais, profissionais, etárias) que qualquer língua viva possui. A intenção
não é aceitar o erro, como alguns julgam, ou substituir uma língua por outra. E
sim, como assevera Gagné (2002) familiarizar o
aluno com a diversidade linguística. Algo também preconizado por Bagno ( 2002,
p. 134)
[...] é interessante estimular nas aulas de
língua materna um conhecimento cada vez maior e melhor das variedades
sociolinguísticas para que o espaço de sala de aula deixe de ser o local para
estudo exclusivo das variedades de maior prestígio social e se transforme num
laboratório vivo de pesquisa do idioma em sua multiplicidade de formas e usos
(BAGNO, 2002, p. 134).
Infelizmente o ensino
da língua materna limita-se ao ensino de gramática, apresentada como norma
culta, exclui o ensino de todas as manifestações escritas ou faladas por
qualquer falante nativo, contribuindo ainda mais para a propagação do
preconceito linguístico posto que a relevância
atribuída a cada variação ainda continua vinculado à classe social de
seus falantes.
Tanto
os autores de livros didáticos quanto os educadores ainda confundem-se com os
termos Língua Padrão[1]
e Língua Culta[2].
Ensinar Português ou a língua, não é transmitir apenas regras da gramática
descontextualizada das situações reais de uso dos falantes, pois desta forma
ele está privilegiando apenas uma das variedades da língua e as demais estão
sendo ignoradas.
Comungando
desta mesma acepção Bortoni- Ricardo (2005,
p.15) diz que:
A
escola não pode ignorar as diferenças sociolinguísticas. Os professores e por
meio deles, os alunos têm que estar bem conscientes de que existem duas ou mais
maneiras de dizer a mesma coisa. E mais, que essas formas alternativas servem a
propósitos comunicativos distintos e são recebidas de maneira diferenciada pela
sociedade” (BORTONI-RICARDO,2005, p. 15)
Diante do exposto, fica evidente que
a escola precisa repensar suas práticas pedagógicas e ter como ponto de partida
as variedades linguísticas, para explorá-las de forma mais sistemáticas. Pois a
partir do momento que fizer isso todos serão beneficiados: escola/docentes e
alunos, visto que partirão de reais situações comunicativas para realizar uma
educação linguística eficiente.
A sociolinguística nos ensina que a língua varia de
acordo com os grupos sociais. Diante disso, é preciso que os professores, ao
escolherem um livro didático, observem como este analisa a questão da variação
linguística, fazendo a seguinte pergunta: como esse livro aborda o ensino
variação na sala de aula.
De acordo com Calvet (2002:32):
A Sociolinguística objetiva
sistematizar a variação presente na linguagem não alçando mão da perspectiva
evolutiva cronológica, mas pensando nas alterações perceptivas em curso da
língua no presente. Ela considera fatores como idade, sexo, educação utilizando
pressupostos da análise linguística tradicional para estabelecer correlação
entre o social e o linguístico.
( CALVET, 202, P.32)
Segundo Bagno (2000:55) “O estudo científico da
linguagem oral é importante por ser na língua falada que ocorrem as mudanças e
as variações que incessantemente vão transformando a língua”.
A linguagem padrão que se ensina é diferente e
distante do português utilizado no dia a dia, o que leva muitos a concepção de
que desconhecem essa língua. Para Bagno (2011) “o preconceito linguístico não
existe. O que existe de fato é o preconceito social. Então, a língua, a maneira
de falar da pessoa é apenas uma desculpa que as outras pessoas usam para
discriminar, para excluir. Então o preconceito é social”.
Assim como os autores acima citados, os PCN de Língua
Portuguesa (1998:48) reconhece a importância de trabalhar levando em conta a
variação linguística, porém, nos adverte quanto à forma
de lidar com essa situação, respeitando as diferenças para não realçar a
questão do erro e acerto evitando a discriminação de algumas manifestações
linguísticas:
O domínio da língua tem
estreita relação com a possibilidade de plena participação social efetiva, pois
é por meio dela que o homem se comunica, tem acesso à informação, expressa e
defende pontos de vista, partilha ou constrói visões de mundo, produz
conhecimento. Assim um projeto educativo comprometido com a democratização
social e cultural atribui à escola a responsabilidade de garantir a todos os
seus alunos o acesso aos saberes linguísticos necessários para o exercício da
cidadania, direito inalienável de todos. (BRASIL, 1998, p. 48).
“N
O Professor de Língua Portuguesa deve estar ciente
de que existem variedades, tanto na língua falada como escrita. A escola
precisa dar espaço para que seus alunos e envolvidos revelem diversas formas de
comunicação provindas de sua comunidade, uma vez que nela circulam pessoas de
faixa etária, regiões, escolaridade, renda díspares. Sobre esse pensamento
Bagno (2001, p.59) propõe:
Desdobrar dentro da escola um painel multifacetado,
complexo e rico da realidade linguística brasileira, em vez de oferecer como
único modelo a ser imitado o dos clássicos da literatura. A escola, insisto,
tem de se abrir a todos os gêneros em que se pode concretizar o uso da língua.( BAGNO, 2001,59)
Os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua
Portuguesa (2001: 12), no item 1.4.2 sob o tópico Que fala cabe à escola
ensinar? Nos alerta para a propagação do respeito à integridade linguística de
seus alunos orienta também como a escola deve posicionar-se diante de
diferentes formas de falar:
A língua Portuguesa, no Brasil, possui muitas
variedades dialetais. Identificam-se geográfica e socialmente as pessoas pela
forma como falam. Mas há muitos preconceitos decorrentes do valor social
relativo que é atribuído aos diferentes modos de falar: é muito comum se
considerarem as variedades linguísticas de menor prestígio como inferiores ou
errada. O problema do preconceito disseminado na sociedade em relação às falas
dialetais deve ser enfrentado, na escola, como parte do objetivo educacional
mais amplo de educação para o respeito à diferença. (PCN, 2001, p.12)
Dessa
forma, todos nós, educadores devemos estar atentos às situações que envolvem
fenômenos linguísticos considerados erros por serem manifestações que fogem às
regras da variedade culta na sala de aula. Nosso aluno não pode sentir-se
intimidado ou até mesmo discriminado devido a sua forma de expressar.
Artigo elaborado por: Elania Ferreira
[1] Língua Padrão: é o modelo ideal
de língua que deve ser usado que a Gramática Normativa preconiza, que deve ser
ensinado pelas escolas, contudo ninguém consegue apreendê-la completamente
devido as suas arbitrariedades.
[2] Língua Culta: é a que é tida como língua correta, está
intimamente ligada ao nível social, pois é a língua da elite, das classes mais
privilegiadas socialmente, e os que na a dominam, as demais variedades, são
estigmatizadas, assim como seus falantes, e vistas como usos errados e
inaceitáveis.
Nenhum comentário:
Postar um comentário