A
teoria da variação linguística tem sido muito discutida na atualidade. Isso se
deve às contribuições que seus estudos trouxeram para o âmbito
educacional, principalmente no campo da
concepção de língua, rompendo aquela noção arcaica da homogeneidade da língua
tão frisada pela gramática normativa.
Os
interessados por esta teoria se deparam com um grande dilema, principalmente os
professores de língua portuguesa, pois estudam a relevância de utilizá-la na
sala de aula, contudo, os livros didáticos, o currículo, e todo um sistema
obsoleto insistem em propagar o ensino da língua unívoca e continuam propagando
uma prática de ensino prescritivo-normativo. Outras vezes, os professores
abordam a variação linguística de forma deturpada, não conseguem potencializar
em instrumento pedagógico, limitando-a ao sinônimo de “falar errado”.
Como
preconiza Celso Cunha (1975, P.40)
Nenhuma língua
permanece a mesma em todo o seu domínio e, ainda num só local, apresenta um
sem-número de diferenciações. [...] Mas essas variedades de ordem geográfica,
de ordem social e até individual, pois cada um procura utilizar o sistema
idiomático da forma que melhor lhe exprime o gosto e o pensamento, não
prejudicam a unidade superior da língua, nem a consciência que têm os que a
falam diversamente de se servirem de um mesmo instrumento de comunicação, de
manifestação e de emoção. (CUNHA,1975, P.40)
O estudioso Cunha nos atenta para
a importância de se considerar o estudo da língua numa perspectiva geográfica,
social e individual. Pois cada indivíduo tem suas características ímpares e
utiliza seu idioma para expressar-se de acordo com seu gosto e pensamento.
Sendo
assim, é vital que se compreenda que a variação linguística é a maneira típica
de falar de cada indivíduo. Essas formas
de falar, ou diferentes realizações de uma dada língua advêm de fatores de
naturezas específicas: histórica, regional, social, contextual. Essas variações
podem ocorrer nos níveis fonéticos e fonológico, morfológico, sintático e
semântico.
Para
Bagno (APUD CRYSTAL, David,):
As línguas não se desenvolvem, não progridem, não
decaem, não evoluem, nem agem de acordo com nenhuma das metáforas que implicam
um ponto final específico ou de excelência. Elas simplesmente mudam como as
sociedades mudam. Se uma língua morre é porque seu status na sociedade se
alterou, na medida em que outras culturas e línguas a sobrepuseram: ela não
morre porque ficou “velha demais”, ou porque se “tornou muito complicada com às
vezes pensam”. (1987, p.4)
Aquele
velho mito de “erro” continua impregnado na nossa sociedade. No entanto, se nos
adentrarmos no campo da teoria da variação perceber-se-á que ela varia (socialmente) e muda no tempo
(historicamente) e no espaço (geograficamente).
Bagno (2002) afirma que
Ora, já está mais do que comprovado que, do ponto de
vista exclusivamente científico, não existe erro em língua, o que existe é
variação e mudança, e a variação e a mudança não são “acidentes de percurso”:
muito pelo contrário, elas são constitutivas da natureza mesma de todas as
línguas humanas vivas. Além disso, as línguas não variam/mudam nem para
“melhor” nem para “pior”, elas não “progridem” nem se “deterioram”: elas
simplesmente (e até obviamente, eu diria) variam e mudam.
Partindo dessa premissa, não se pode
estudar a língua como morta, estática, sem considerar as pessoas vivas como
salienta Bagno (2008). Por ser viva, a língua se renova constantemente. E com
esta renovação decorre um processo de mudança, tornando-a múltipla, dinâmica.
Como nos confirma Antunes (2007) “a língua só existe em sociedade, e toda
sociedade é inevitavelmente heterogênea, múltipla, variável e, por conseguinte,
com usos diversificados da própria língua.”.
Ao salientar que a língua apresenta
variação é o mesmo que dizer que ela é heterogênea, e isso se dá por meio de
aspectos geográficos, sociais, culturais e econômicos que a constituem. Por
isso, não pode e nem deve ser trabalhada de forma inapropriada, como unívoca.
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