sexta-feira, 6 de julho de 2018

O QUE É VARIAÇÃO LINGUÍSTICA?



A teoria da variação linguística tem sido muito discutida na atualidade. Isso se deve às contribuições que seus estudos trouxeram para o âmbito educacional,  principalmente no campo da concepção de língua, rompendo aquela noção arcaica da homogeneidade da língua tão frisada pela gramática normativa.
Os interessados por esta teoria se deparam com um grande dilema, principalmente os professores de língua portuguesa, pois estudam a relevância de utilizá-la na sala de aula, contudo, os livros didáticos, o currículo, e todo um sistema obsoleto insistem em propagar o ensino da língua unívoca e continuam propagando uma prática de ensino prescritivo-normativo. Outras vezes, os professores abordam a variação linguística de forma deturpada, não conseguem potencializar em instrumento pedagógico, limitando-a ao sinônimo de “falar errado”.
Como preconiza Celso Cunha (1975, P.40)
Nenhuma língua permanece a mesma em todo o seu domínio e, ainda num só local, apresenta um sem-número de diferenciações. [...] Mas essas variedades de ordem geográfica, de ordem social e até individual, pois cada um procura utilizar o sistema idiomático da forma que melhor lhe exprime o gosto e o pensamento, não prejudicam a unidade superior da língua, nem a consciência que têm os que a falam diversamente de se servirem de um mesmo instrumento de comunicação, de manifestação e de emoção. (CUNHA,1975, P.40)
O estudioso Cunha nos atenta para a importância de se considerar o estudo da língua numa perspectiva geográfica, social e individual. Pois cada indivíduo tem suas características ímpares e utiliza seu idioma para expressar-se de acordo com seu gosto e pensamento.
Sendo assim, é vital que se compreenda que a variação linguística é a maneira típica de falar de cada indivíduo.  Essas formas de falar, ou diferentes realizações de uma dada língua advêm de fatores de naturezas específicas: histórica, regional, social, contextual. Essas variações podem ocorrer nos níveis fonéticos e fonológico, morfológico, sintático e semântico.
Para Bagno (APUD CRYSTAL, David,):
As línguas não se desenvolvem, não progridem, não decaem, não evoluem, nem agem de acordo com nenhuma das metáforas que implicam um ponto final específico ou de excelência. Elas simplesmente mudam como as sociedades mudam. Se uma língua morre é porque seu status na sociedade se alterou, na medida em que outras culturas e línguas a sobrepuseram: ela não morre porque ficou “velha demais”, ou porque se “tornou muito complicada com às vezes pensam”. (1987, p.4)
Aquele velho mito de “erro” continua impregnado na nossa sociedade. No entanto, se nos adentrarmos no campo da teoria da variação perceber-se-á que ela varia (socialmente) e muda no tempo (historicamente) e no espaço (geograficamente).
Bagno (2002) afirma que
Ora, já está mais do que comprovado que, do ponto de vista exclusivamente científico, não existe erro em língua, o que existe é variação e mudança, e a variação e a mudança não são “acidentes de percurso”: muito pelo contrário, elas são constitutivas da natureza mesma de todas as línguas humanas vivas. Além disso, as línguas não variam/mudam nem para “melhor” nem para “pior”, elas não “progridem” nem se “deterioram”: elas simplesmente (e até obviamente, eu diria) variam e mudam.
Partindo dessa premissa, não se pode estudar a língua como morta, estática, sem considerar as pessoas vivas como salienta Bagno (2008). Por ser viva, a língua se renova constantemente. E com esta renovação decorre um processo de mudança, tornando-a múltipla, dinâmica. Como nos confirma Antunes (2007) “a língua só existe em sociedade, e toda sociedade é inevitavelmente heterogênea, múltipla, variável e, por conseguinte, com usos diversificados da própria língua.”.
Ao salientar que a língua apresenta variação é o mesmo que dizer que ela é heterogênea, e isso se dá por meio de aspectos geográficos, sociais, culturais e econômicos que a constituem. Por isso, não pode e nem deve ser trabalhada de forma inapropriada, como unívoca.

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